Por que estou migrando da Roblox para o desenvolvimento web
Source: Dev.to
A ilusão que muitas pessoas têm sobre criar um jogo
Muitas pessoas observam jogos populares e concluem que ganhar dinheiro no ecossistema é algo simples. A lógica costuma ser superficial: se o jogo é básico, segue uma tendência e possui alto número de jogadores simultâneos, então provavelmente está gerando grande receita.
O problema dessa interpretação é que ela se baseia apenas nas exceções visíveis. Em praticamente qualquer área existem casos fora da curva, e usá‑los como regra costuma ser um erro.
Um exemplo recente foi a grande onda de jogos baseados no meme viral dos Italians Brainrots. A plataforma foi rapidamente inundada por variações praticamente idênticas explorando a mesma tendência.
À primeira vista, a presença de vários jogos semelhantes e com alto CCU pode sugerir que o modelo é facilmente replicável. Porém, essa visão ignora o principal gargalo do desenvolvimento independente: a distribuição.
Criar o jogo geralmente é a parte mais simples do processo. O maior desafio está em fazer o produto alcançar usuários suficientes para se sustentar dentro do algoritmo da plataforma. Isso envolve métricas de retenção, concorrência, posicionamento de mercado, timing e, muitas vezes, investimento.
A página inicial da plataforma tende a mostrar apenas os vencedores. O que não fica visível são centenas ou milhares de projetos que tentaram replicar fórmulas semelhantes e desapareceram silenciosamente.
Outro fator relevante é a dependência de tendências. Projetos que não estão alinhados com algo já popular possuem menor probabilidade de crescimento orgânico. Fora das trends, o crescimento exige a construção do próprio alcance, o que normalmente envolve estratégia de divulgação e posicionamento contínuo.
A ilusão dos “70 %”
Existe um discurso comum de que a plataforma paga 70 % da receita ao desenvolvedor, baseado na ideia de que 30 % fica com a plataforma.
Na prática, quando se considera a conversão monetária via sistema de exchange, a receita real recebida pelo desenvolvedor tende a ser significativamente menor, frequentemente abaixo de ~25 % do valor gerado pelo produto.
Isso acontece porque os 70 % representam uma fração de moeda virtual que ainda passará por outra conversão antes de se transformar em dinheiro real.
Não se ignora o fato de que a plataforma fornece infraestrutura (servidores, distribuição, moderação e sistema de pagamento). Esse modelo possui valor operacional e deve ser considerado dentro da análise, mas não altera o fato de que o ganho efetivo é diferente da impressão inicial.
Não é objetivo entrar profundamente no debate sobre o sistema de exchange, pois já existem discussões extensas sobre o tema:
Carreira profissional e evolução técnica
A escolha da plataforma de aprendizado não é o fator mais determinante para a construção de uma carreira na programação. O ponto central é o tipo de profissional que se deseja formar ao longo do tempo.
Quando o desenvolvimento fica excessivamente concentrado dentro do ecossistema da plataforma, existe o risco de otimização apenas para problemas locais, sem aprofundamento nos princípios gerais da engenharia de software.
O problema não está na ferramenta em si. Qualquer ambiente pode gerar essa limitação quando o foco do aprendizado é apenas fazer o projeto funcionar, sem compreender os fundamentos que sustentam a solução.
Esse cenário é comum quando o aprendizado se restringe ao uso de ferramentas prontas, frameworks ou abstrações que escondem a complexidade estrutural do sistema.
É relativamente frequente encontrar desenvolvedores que conseguem construir aplicações funcionais, mas têm dificuldade para organizar projetos maiores, trabalhar em equipe ou manter código a longo prazo.
Um exemplo prático disso é a baixa adoção consistente de controle de versão. Para projetos pequenos, a ausência dessa prática pode não causar impacto imediato, porém se torna um gargalo conforme o sistema cresce ou exige colaboração.
Mesmo quando há interesse em melhorar o fluxo de trabalho estudando novas metodologias, surge outro problema: aplicar essas ideias dentro de um ambiente coletivo. Processos não mudam apenas pela qualidade técnica da ideia, mas também pela cultura da equipe e pela disposição organizacional para mudanças.
No fim, o valor real da trajetória profissional não está em dominar um único ecossistema, mas em desenvolver raciocínio técnico que seja transferível entre diferentes áreas da computação.
Estabilidade financeira e mercado de trabalho
Outro ponto relevante é a questão da estabilidade e das oportunidades reais de inserção profissional. Trabalhar dentro do ecossistema da Roblox, especialmente em projetos independentes ou comissionados, pode apresentar uma limitação prática em termos de previsibilidade de renda.
Os pagamentos dentro desse ambiente tendem a ser relativamente baixos quando comparados a oportunidades em empresas de tecnologia tradicionais ou a trabalhos freelance que utilizam outras plataformas de monetização.
Portanto, ao considerar uma carreira focada exclusivamente em Roblox, é importante avaliar:
- Diversificação de fontes de renda – não depender apenas de royalties da plataforma.
- Desenvolvimento de habilidades transferíveis – como arquitetura de software, testes automatizados, CI/CD, etc.
- Construção de um portfólio amplo – que inclua projetos fora do Roblox para demonstrar versatilidade a futuros empregadores.
Essas estratégias ajudam a mitigar os riscos financeiros e aumentam a empregabilidade em um mercado de trabalho cada vez mais competitivo.
Este texto reflete minhas percepções pessoais e não deve ser tomado como conselho financeiro ou profissional definitivo.
Desafios em outros mercados
Muitos profissionais que buscam oportunidades fora de nichos específicos — como o desenvolvimento dentro de plataformas fechadas — acabam encontrando barreiras que exigem esforço significativo para alcançar remunerações consideradas confortáveis. Além disso, muitos modelos de trabalho dependem de comissão ou projetos pontuais, o que naturalmente reduz a estabilidade financeira.
É comum que alguém mencione a importância do networking como estratégia de crescimento. Construir conexões profissionais é relevante em qualquer área, mas o problema não está no networking em si; ele surge quando ele se torna a única forma de obtenção de oportunidades.
Depender excessivamente de relações pessoais para conseguir trabalho ou renda pode tornar o processo profissional mais frágil e menos previsível. Embora seja possível alcançar bons resultados por esse caminho, ele não garante uma estrutura de carreira estável.
Para mim, faz mais sentido buscar áreas onde existam:
- maiores possibilidades de acesso ao mercado de trabalho;
- maior diversidade de modelos de contratação;
mesmo que isso exija estudo e adaptação técnica.
Migração para desenvolvimento web
A decisão de migrar não está baseada apenas no que é possível construir dentro da plataforma, mas no nível de autonomia técnica e evolução profissional que considero mais relevante.
- Plataformas fechadas tendem a incentivar produção orientada à execução rápida de ideias. Isso pode ser útil como aprendizado inicial, mas também cria dependência de soluções específicas do ecossistema.
- O maior ponto de divergência não é a capacidade de criar jogos, e sim a limitação prática de escopo profissional. A especialização excessiva em um ambiente fechado pode dificultar a transição para áreas mais amplas da engenharia de software.
Existe uma diferença fundamental entre:
- Dominar uma ferramenta – saber usar todas as funcionalidades de um ambiente específico.
- Dominar os princípios – compreender os conceitos que permitem construir sistemas independentes da ferramenta.
Quando o aprendizado fica restrito ao funcionamento interno de uma única plataforma, o desenvolvedor pode se tornar eficiente em resolver problemas locais, mas menos adaptável a cenários externos.
O desenvolvimento web representa, para mim, um espaço com:
- maior liberdade arquitetural;
- maior proximidade com conceitos que atravessam diferentes áreas da computação.
Não se trata de considerar o desenvolvimento de jogos inferior, mas de observar que alguns ecossistemas possuem menor abertura estrutural para a construção de produtos fora do fluxo principal da plataforma.
Outro fator importante é a perspectiva de crescimento fora do papel de empregado dentro de um nicho fechado. Se a trajetória profissional não estiver limitada apenas à execução técnica, faz mais sentido buscar áreas que permitam:
- a criação de produtos;
- escalabilidade de ideias;
- exploração de oportunidades com maior controle sobre o próprio trabalho.
No fim, a decisão não é sobre qual área é “melhor”, mas sobre qual direção profissional possui maior coerência com o tipo de evolução técnica e intelectual que se deseja construir a longo prazo.
Side projects e continuidade
Talvez soe um pouco contraditório ou até pareça click‑bait, mas não tenho intenção de abandonar o desenvolvimento dentro da Roblox.
A ideia não é tratar a plataforma como um ponto de ruptura, e sim como um espaço secundário de experimentação. Os projetos que já existem serão mantidos como side projects, evoluindo apenas quando houver tempo e interesse, sem pressão de produtividade ou expectativa de retorno profissional.
- O foco principal deixa de ser a plataforma e passa a ser outra direção de carreira.
- Isso não significa eliminar completamente o que já foi construído; é apenas uma reorganização de prioridades, não uma rejeição ao ecossistema.
Resumo:
- Busco maior estabilidade e diversidade de oportunidades.
- A migração para desenvolvimento web oferece autonomia técnica e abertura de mercado.
- Projetos na Roblox permanecem como iniciativas paralelas, mantidas por escolha e interesse pessoal.
